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O Enigmático Cirineu

Edio 294 - 10 a 16 de dezembro de 2010

A vida é cheia de surpresas – Boas e más! Um dos personagens mais enigmáticos da bíblia é um homem chamado Cirineu, que ajudou Jesus a carregar a cruz até o Gólgota. Ninguém fala dele; não há discurso positivo ou negativo sobre sua pessoa, e apenas uma descrição casual na narrativa da morte de Jesus.
Cirineu participa deste processo de forma absolutamente involuntária. Ele não estava no meio da multidão que pedia a crucificação de Cristo, nem do processo de julgamento, desconhece as questões e conflitos políticos e religiosos da cúpula de Jerusalém, e, ao voltar da zona rural, é obrigado a participar de forma absolutamente incidental, do dantesco cortejo da crucificação.
Cirineu é transeunte. Ele passava por ali. Sua rota era outra: vinha do campo para casa, não revela ter qualquer interesse nos motins sociais, nem nos conflitos que moviam a história de seu pequeno país. No entanto é pego de passagem. Estava no lugar errado, na hora errada.
Lucas relata que os soldados o constrangeram a carregar a cruz, talvez porque tivesse rejeitado inicialmente. De acordo com os cristãos, o eixo central da história da humanidade é a história da redenção, e este anônimo personagem é levado para seu centro, sendo citado e conhecido no mundo inteiro por este gesto acidental, de ter participado de um projeto para o qual não fizera opção.
Se ele ao menos entendesse o significado da Páscoa, talvez não tivesse carregado aquela cruz por constrangimento. Se soubesse porque Jesus estava sendo levado para aquele lugar, e da necessidade de derramar seu sangue pela humanidade, talvez até se oferecesse para ajudar. Aquela pesada tarefa se tornaria leve. Sua humilhação ao lado daquele desprezível homem, vaiado e humilhado, se revestiria de um enorme significado. Ele se veria, ainda que não o fosse, parceiro de Deus no projeto da redenção.
Cirineu teve o privilegio de carregar e sentir um pouco do peso da cruz que era sua – Infelizmente Jesus fez isto sozinho por mim: eu não pude ajudar...
Aquela cruz era minha. Jesus a tomou sozinho. Fui beneficiado de forma indelével por este seu gesto, onde ele sem falar, mostrou o valor maior do amor. Nada fiz para receber os benefícios dela, nem o poder da sua crucificação. Ele fez sozinho por mim! Como transeunte na história da vida, ali fui crucificado com meu mestre, mas ele levou no seu corpo a minha dor.
Cirineu teve este grande privilégio! Se ele ao menos entendesse a grandiosidade deste drama. Certamente achou muito vergonhoso e humilhante estar ali. Fazer o trabalho braçal diariamente no campo não era coisa muito complexo, mas as circunstâncias eram constrangedoras.
No entanto, a cruz o resgata do anonimato que atinge todos os seres humanos; e ainda mais, a cruz que ele carrega o resgata das trevas. Aquela cruz era a minha cruz, e ali meus pecados foram colocados sobre meu Mestre. Ela era pesada por minha causa, porque por meio de suas pisaduras e da sua morte eu fui lavado. Ele é o Cordeiro que tira o pecado do mundo pelo sangue que foi derramado.
Naquela cruz, ele foi moído pelas minhas transgressões. Aquela cruz, tão pesada para meu mestre, é a fonte de toda minha glória pessoal. Paulo afirma: “Eu me glorio na cruz” (Gl 6.14). A cruz é lugar de maldição, pois ali “Cristo nos resgatou da maldição da lei”, fazendo-se ele próprio “maldição em nosso lugar” (Gl 3.13). A cruz foi constrangedora para Cirineu, e mais ainda para Jesus. No entanto, a cruz até hoje é o símbolo maior do cristianismo, pois ela aponta para o fato de que Jesus quitou ali os meus débitos, declarando minha alforria! Afirmou que tudo estava pago! (Jo 19.30) e “cancelou o escrito da dívida que era contra nós” (Cl 2.14).
Que privilégio este enigmático e constrangido homem teve em tornar um pouco mais suportável a tarefa que meu mestre teve de carregar minha cruz. Quanto a mim, eu apenas a tornei mais pesada para Jesus, porque sobre esta cruz ele levou todos os meus pecados e me perdoou!

Autor(a): Samuel Vieira